O Brasil tem hoje mais de 20.000 startups ativas, 11 unicórnios — empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão — e o maior ecossistema de tecnologia financeira da América Latina. São Paulo é o 13º maior hub de startups do mundo. Esses números são impressionantes para um país que, há 15 anos, praticamente não tinha uma cultura de empreendedorismo tecnológico.
Mas por trás dos números brilhantes, há desafios que o ecossistema ainda não resolveu. A concentração geográfica em São Paulo. A dificuldade de acesso a capital para startups fora do eixo Rio-São Paulo. A baixa diversidade — tanto de gênero quanto racial — entre os fundadores. E a dependência de capital estrangeiro, que torna o ecossistema vulnerável a mudanças no cenário global de investimentos.
O boom e o ajuste
Entre 2019 e 2021, o ecossistema brasileiro de startups viveu um boom histórico. O capital de risco fluiu em abundância, valuations dispararam e o número de unicórnios saltou de 2 para 11. Empresas como Nubank, iFood, Quinto Andar e Loft atraíram bilhões de dólares em investimento.
O ajuste veio em 2022, quando a alta das taxas de juros globais reduziu o apetite dos investidores por ativos de risco. Várias startups que haviam crescido rapidamente com capital abundante precisaram cortar custos, demitir funcionários e revisar seus modelos de negócio. Algumas fecharam. O ecossistema ficou mais sóbrio — e, possivelmente, mais saudável.
"O boom de 2019-2021 criou muita empresa que não deveria existir. O ajuste foi doloroso, mas necessário. O que ficou é mais resiliente." — Pedro Waengertner, fundador da ACE Startups
A desigualdade dentro do ecossistema
Menos de 15% das startups brasileiras têm pelo menos uma fundadora mulher. Menos de 5% têm um fundador negro. Esses números refletem desigualdades estruturais que vão além do ecossistema de startups — mas o ecossistema tem a responsabilidade de não reproduzi-las.
Iniciativas como a Bossanova Investimentos, que tem um fundo dedicado a startups lideradas por mulheres, e a Positive Ventures, que investe em startups de impacto social, estão tentando mudar esse cenário. Mas o ritmo é lento.
O que vem pela frente
O ecossistema brasileiro de startups está em um momento de maturidade. As empresas que sobreviveram ao ajuste de 2022-2023 são mais eficientes e têm modelos de negócio mais sólidos. O mercado de capital de risco está se recuperando. E a inteligência artificial está criando novas oportunidades para startups que conseguem aplicar a tecnologia a problemas reais do mercado brasileiro.
O desafio agora é expandir o ecossistema para além de São Paulo, incluir mais fundadores de diferentes origens e garantir que a inovação tecnológica contribua para reduzir — e não ampliar — as desigualdades brasileiras.