Algo está acontecendo com o cinema brasileiro. Não é um fenômeno novo — o Brasil sempre teve uma tradição cinematográfica rica, do Cinema Novo dos anos 1960 ao Retomada dos anos 1990. Mas o que está acontecendo agora tem uma dimensão diferente: o cinema brasileiro está chegando a audiências globais de uma forma que nunca havia acontecido antes.

Em 2024, três produções brasileiras foram selecionadas para a competição principal do Festival de Cannes — um recorde histórico. Plataformas de streaming como Netflix, Amazon Prime e MUBI têm investido em produções nacionais e distribuído filmes brasileiros para audiências em mais de 190 países. E diretores brasileiros estão sendo convidados para dirigir produções internacionais de grande orçamento.

Uma nova geração de cineastas

O que está por trás desse momento é, em grande parte, uma nova geração de cineastas que cresceu assistindo tanto ao cinema clássico brasileiro quanto ao cinema mundial contemporâneo. São diretores que falam a linguagem do cinema global sem abrir mão de histórias profundamente brasileiras.

Kleber Mendonça Filho, de Recife, é talvez o nome mais internacionalmente reconhecido dessa geração. Seus filmes — Aquarius, Bacurau, Retratos Fantasmas — têm uma identidade visual e narrativa inconfundível que é ao mesmo tempo local e universal. "Eu faço filmes sobre o Brasil para o mundo. Não faço filmes sobre o Brasil para o Brasil", disse em entrevista recente.

"O cinema brasileiro sempre foi bom. O que mudou é que agora o mundo tem ferramentas para encontrá-lo. O streaming democratizou o acesso ao cinema de todo o mundo — e o cinema brasileiro foi um dos grandes beneficiados." — Lúcia Murat, diretora e produtora

O desafio do financiamento

O sucesso internacional não resolve os problemas estruturais do cinema brasileiro. O financiamento ainda depende em grande parte de mecanismos de incentivo fiscal — especialmente a Lei Rouanet e o Fundo Setorial do Audiovisual. Esses mecanismos são fundamentais, mas também são vulneráveis a cortes orçamentários e mudanças de prioridade política.

Durante o governo Bolsonaro, o orçamento da Ancine — Agência Nacional do Cinema — foi cortado drasticamente, e o Fundo Setorial do Audiovisual ficou bloqueado por dois anos. O impacto foi sentido na quantidade de produções que chegaram às telas entre 2022 e 2024. A recuperação está em curso, mas o setor ainda ressente os efeitos do período de escassez.

O cinema que conta o Brasil

O que une as produções brasileiras que têm conquistado reconhecimento internacional é a disposição de contar histórias que o Brasil muitas vezes prefere não ver. Histórias de periferias, de violência policial, de desigualdade, de identidade racial, de resistência cultural. São filmes que incomodam — e é exatamente por isso que são importantes.

"O cinema tem uma capacidade única de criar empatia. De fazer com que você veja o mundo pelos olhos de alguém completamente diferente de você. E o Brasil tem histórias urgentes para contar", diz a diretora Petra Costa, cujo documentário Democracia em Vertigem foi indicado ao Oscar em 2020.

O mundo está descobrindo o cinema brasileiro. A questão é se o Brasil vai continuar investindo nele.