O Brasil gasta, por aluno, menos do que a maioria dos países da OCDE. Mas o problema da educação brasileira não é apenas financeiro — é estrutural, cultural e político. É uma dívida acumulada ao longo de décadas que não se paga com um decreto ou um programa de governo.

Os números do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) de 2024 mostram que o Brasil está abaixo da média da OCDE em leitura, matemática e ciências. Em matemática, o desempenho médio dos estudantes brasileiros de 15 anos equivale ao de estudantes de 12 anos em países como Finlândia e Coreia do Sul. A diferença não é de anos — é de décadas.

O Brasil no PISA 2024

Leitura: 413 pontos (média OCDE: 476). Matemática: 379 pontos (média OCDE: 472). Ciências: 403 pontos (média OCDE: 485). O Brasil ocupa a 65ª posição entre os 81 países participantes.

A desigualdade que a média esconde

A média nacional já é preocupante. Mas ela esconde uma desigualdade ainda mais alarmante. Um estudante de uma escola privada de São Paulo tem desempenho comparável ao de estudantes de países desenvolvidos. Um estudante de uma escola pública do interior do Maranhão está, em média, quatro anos de aprendizado atrás.

Essa desigualdade tem raízes na desigualdade de investimento. Estados mais ricos investem mais por aluno. Municípios mais ricos têm escolas melhores, professores mais bem pagos e infraestrutura mais adequada. O FUNDEB, fundo de financiamento da educação básica, foi reformulado em 2020 para reduzir essas disparidades, mas os efeitos ainda são limitados.

"A gente não vai resolver a educação brasileira sem resolver a desigualdade brasileira. E não vai resolver a desigualdade sem uma educação de qualidade para todos. É um círculo — a questão é onde você entra nele." — Prof. Fernando Haddad Neto, pesquisador da FGV Educação

O professor que o Brasil não valoriza

O Brasil tem cerca de 2,2 milhões de professores na educação básica. A maioria é mulher, trabalha em mais de uma escola para complementar a renda e não tem tempo para formação continuada. O salário médio de um professor com ensino superior completo e 20 anos de experiência é de cerca de R$ 3.800 — abaixo do salário médio de um técnico de nível médio em muitos setores.

A falta de atratividade da carreira docente cria um ciclo perverso: os melhores estudantes não escolhem a pedagogia, o que reduz a qualidade dos futuros professores, o que piora a educação, o que reduz ainda mais o prestígio da profissão. Países que têm os melhores sistemas educacionais do mundo — Finlândia, Coreia do Sul, Singapura — têm em comum a valorização extrema da carreira docente.

O que está funcionando

Nem tudo é sombrio. O Brasil tem exemplos de sucesso que mostram que é possível melhorar a educação mesmo com recursos limitados. O Ceará, que nos anos 1990 tinha um dos piores indicadores educacionais do país, implementou reformas consistentes ao longo de 20 anos e hoje está entre os estados com melhor desempenho no SAEB. A chave foi a combinação de gestão eficiente, formação de professores e monitoramento constante dos resultados.

O programa Tempo de Aprender, do governo federal, que focou na alfabetização nos anos iniciais do ensino fundamental, mostrou resultados positivos em estados que o implementaram com seriedade. A educação em tempo integral, que está sendo expandida, também tem evidências de impacto positivo — especialmente para estudantes de famílias mais vulneráveis.

O que precisa mudar

Especialistas em educação têm uma lista longa de mudanças necessárias. Mas há consenso em torno de alguns pontos fundamentais: valorização e formação de professores, gestão escolar eficiente, currículo relevante e contextualizado, e avaliação sistemática dos resultados com uso efetivo dos dados para melhorar as práticas.

Nenhuma dessas mudanças é simples. Todas exigem tempo, recursos e continuidade de políticas que sobrevivam às mudanças de governo. E todas exigem que a educação seja tratada como prioridade real — não apenas nos discursos de campanha, mas nas decisões orçamentárias e nas agendas dos governantes.

A dívida do Brasil com sua educação é grande. Mas não é impagável. O Ceará mostrou que é possível. A questão é se o país tem a vontade política de fazer o que precisa ser feito.